Mamutte


Crítica

Crítica - A Modéstia do Quase



“Uma trinca poética e sedutora” – assim pode ser visto “Quase disco”, álbum de estreia do jovem artista mineiro [?]. As três faixas que compõem o EP, longe de revelar um minimalismo da obra do cantor, expõem sua a versatilidade: passando pelo baião, frevo, forró, bem como pelo rock, Mamutte extrai o que de melhor esses gêneros trazem: identidade cultural, vigor, inventividade, técnica musical, cadência embaladora.

A técnica musical, aliás, já se vê desde a abertura do disco – em “Met(amor)fode” – quando se ouve o vocalista solfejando a guitarra que o acompanha. E a perícia não se restringe “só” à execução musical: os jogos sonoros, o gosto por paronomásias formam essa “poética do sensual” que atravessa a obra de Mamutte, multi-artista que além de músico é poeta e performer. São contundentes, a propósito, as performances que o artista faz, sondando potencialidades eróticas e políticas do corpo.

Essa versatilidade só poderia render uma presença de palco esfuziante, o que pôde ser notado e reconhecido em dois momentos recentes: na edição de 2015 do disputado Concurso de Marchinhas Mestre Jonas, em BH, e no lançamento do “Quase disco”, no Cine Theatro Brasil Vallourec. A presença de palco de Mamutte é fruto, além do talento inegável do artista, de uma alegria de quem de fato está vivo, de quem não se deixou pasteurizar pelo ritmo abrupto dos dias atuais.

Um “indício de vida”, chamemos assim, é a capacidade de renovar conceitos, gêneros, como o compositor faz em “Funcool”, canção em que o funk carioca vem pelo viés da sátira e do humor (que passa ao largo do clichê). A vida aí está manifesta na liberdade pra “cutucar” ludicamente um músico (e forte referência do artista mineiro) do porte de Caetano Veloso. Assim, Mamutte filia-se a certa contra-cultura, o que faz com que sua música não caiba em de ouvidos e rádios moralistas (estas, a propósito, costumam ter um setlist tão insosso quanto patrocinado). As letras do “Quase disco” são para quem tem uma sexualidade livre (em salutar oposição a tempos conservadores, tempos religiosamente obscuros), para quem consegue gozar com o caráter livre e provocativo da arte. “Carnavaliza aí”, verso final de “Funcool”, fulgura como um bom recado do multi-artista, frente a tempos tão cinzas, pragmáticos: é preciso carnavalizar, subverter; é preciso abster, esquecer da carne para ter o prazer da/na carne (prazer efetivo, não aquele forjado em manifestação artísticas inócuas).

Sobre o funk de Mamutte vale ressaltar ainda a versão que o artista executa solo: usando um pedal, ele grava, em poucos segundos, as diferentes vozes, os diversos versos e sons que compõem esse funk. Assim, o felizardo expectador da performance confere uma profusão de sons que se avolumam de modo harmônico, num casamento entre humor e sexualidade, entre sátira e sedução.

A grandeza do “Quase disco” não está “somente” no cuidado com as letras e nos arranjos, mas também na relação entre vida e obra. Mais do que fazer um simples diário de gravação, a canção que encerra o álbum ri de si ao trazer as intempéries inevitáveis que cercam a gravação de um disco. Inúmeros artistas, se não forem aquinhoado com uma lei de incentivo, precisam se desdobrar de modo absurdo para viabilizar o projeto. Assim, etapas ordinárias (mas fundamentais) como a montagem de um home studio e até uma primeira gravação perdida compõem os dissabores e as conquistas do cantor mineiro que está longe do quase, já que participa de todo o processo, sendo assim uma figura mais plena, multi, vária, ou seja, longe da fragmentação, da pequenez. “Quase” então é modéstia; é “performance” de quem muito faz (ou então uma provocativa ironia para quem gravou um disco inteiro sem uma fração da lei de incentivo). Nesse jogo autobiográfico e metalinguístico, Mamutte deixa entrever não só talento, mas obstinação. Os percalços que calcam a base sólida do álbum são como chão com pedras várias, com barro, com um mosaico de cores que não se opacam com o tempo. “É assim que se faz” é um verso – sintomático – de quem sabe como fazer; de quem tem talento precoce, e sabe que é preciso ir além do bojador, vencendo a dor, como nos indicava o poeta português.

Se Gil queria “contactar Os lares do Nepal, os bares do Gabão”, Mamutte poetiza seu processo de gravação que se expande para o mundo, casando africanidade a (onipresentes) estrangeirismos tecnológicos. Assim, o compositor liga tradição ao novo, culminando no final de “Quase disco”: um entorpecimento de quem está numa roda de capoeira, de quem dança num terreiro, de quem conclui e – goza – a tarefa colossal de gravar – por conta própria – um belo álbum.


PAULO CAETANO - Doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG, mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp (2011), licenciado em Letras (língua portuguesa e suas literaturas) pela Universidade Federal de Minas Gerais (2006). No meio acadêmico, a atuação se dá, principalmente, nos seguintes temas: memória, tempo, tradução, ensaio, poesia, monstros, construção de personagens.


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