Mamutte


Crítica

Crítica - O Som Carmim



Instaura-se uma dobra quando Mamute entra no palco. Observável, claro, no modo como, cantando, vai dançando também o que canta. Sim, é do artista de palco, dançar a própria música. Mas, aqui, como dito, trata-se de uma “instauração”. Não apenas um corpo a seguir os ritmos da canção. Não apenas canção impondo espécie de coreografia para o que se ouve. É seguramente um som e um corpo, mas é também o espaço no qual eles se encontram. É uma ambiência no sentido além de uma justaposição entre música e dança, o que depõe a respeito da luz, do cenário, dos demais integrantes da banda, do jogar os dados para o público. Dir-se- ia uma composição no sentido amplo do termo; quer dizer, a música não chega pronta, faz-se na dobra com o próprio ambiente enganosamente chamado de palco.

É sobre este “palco” necessário dizer algumas palavras, além daquelas de uma certa crítica que, ao falar de um determinado show, procura exatamente entrelaçar os elementos que nele se compõe. Acho que a atual crítica musical ainda é muito ( como dizer?) “modernosa”, afoita por descobrir “novidades” que uma determinada obra, composição ou saliências cênicas são capazes de proporcionar como uma espécie de experiência extática, da ordem do primal ou instintivo. Parece que hoje se mede a validade de um show pelo o que ele arranca de gritos, sussurros e gemidos do público. Não seria uma má medida se isso não se traduzisse na proporção de um fetiche, tipo o da mercadoria, que, além do valor de uso e de troca, vai adentrar no âmago do valor imperial dos nossos tempos de capitalismo líquido: o valor de gozo.

Tudo bem, pode se falar também de “gozo” o que experimentamos em determinadas apresentações do artista em questão. Vou me ater particularmente em um gozo pessoal, com data e local marcados, ocorreu no show de lançamento do Quase-Disco, no teatro do Cine Brasil Valourec, Belo Horizonte, em 16 de maio de 2015. Mas, vale ampliar as palavras do que seria, então, este tal gozo além do flerte com um estado permanente de excitação, concebe-se como elemento criativo, à medida que vê, ouve, move-se em uma espécie de contradança com o que está acontecendo no palco. Sente-se, por isso, como dentro de um cortejo, profusão de ritmos, as cores igualmente dançando, caras e bocas jocosas dando deixa para o público, salivas, sem contar que aquele que topa o momento, vai meio entrando em uma viagem que, nestas paragens mineiras, acostumamos a sentir quando passa a procissão, ou lá vem os tambores anunciando os negrinhos dourados nas festas de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, entre outras.

Este cortejo é guiado, além do som e da interpretação do artista, por uma cor, a meu ver alusão ao barroquismo que a criatividade de certas aderências corriqueiras da cultura de Minas Gerais forma o caldo que mais tarde, nas convicções de estilo e técnica, vai ser servido nas expressões mais vívidas entre estas montanhas. Esta cor é o CARMIM. É ela que dança, por sinal, nas igrejas de Ouro Preto. São Francisco de Assis, quando tenta beijar o Cristo na cruz, estátua que se encontra na sacristia da igreja que leva o nome do santo, Aleijadinho exposto, aquele beijo impossível, no entanto preste a acontecer, o carmim brilha como convite para quem a deseja entrar, de fato, no que a mística cristã não deu conta.

Carmim, barroco das igrejas e congados mineiros, instaura-se no show, traçado sangue escorrer no que a gente não sabe estar sendo ferido por algo que só é por ser dobra, como nas vestes do santo da sacristia a pouco aludida, e que fica aquém da bainha do entrevado gozo que a mística religiosa só às vezes sublima. Sublimação, diz Freud, é renda, tipo aquele afã amoroso entre as figuras que desfilam nas procissões da semana santa. Judas, Verônica, José de Arimateia, Maria Madalena todos ensaiando o beijo do qual só é possível expressar por uma cor, já que interditado no elance sensual (ou se preferirmos “sexual”) propriamente. O sublime, ainda no sentido freudiano, é o que não foi, não por impossível, sim pelo que antes de dele não houve e depois dele não haverá.

A beleza do show de Mamute é o que torna o referido élan sublime em uma cor da qual é possível, sim, ver, tocar, dançar e, depois desfazer-se, caso queiramos. Pode ser apenas uma experiência do momento, algo da ordem do êxtase que, se bobear, confina exatamente com o tardio do capitalismo agora tornado religião. A minha experiência “religiosa” no show, porém, foi sentir completamente o carmim, isso que não é vermelho como o sangue mas também não é laranja como a fruta madura pronta para comer: é apenas arte.

Como dito, o carmim entra no show como é, cor e arte: no cenário claramente fazendo alusão a objetos das igrejas barrocas, oratórios, fitas, medalhas etc; no vestuário minuciosamente calculado para parecer na batucada capoeirando nas estradas pedregosas da afro arte mineira, nesta coisa que o Brasil tem, além dos coqueiros que dão coco e que vieram pelas mãos de algum português que passou pelas ilhas canárias, tropical como os rifes de Gilberto Gil para versos sem lenço nem arvoredo de Caetano Veloso, com a bandeira perfurada pelo manto que não consegue se dobrar na voz rasgada de um Tom Zé, rasgo igualmente exposto em um justaposto universo subclaramente musical das afros contundências dos convivas Tizumba e Babilak Bha. Mamute corta-os todos, num termo que Nestor Cancline define de “cultura híbrida”. Dela se poderia falar muito em termos de brasis, destes sons que emergem daqui mesmo, minas congada, mas também dos parás carimbós, pampas dos paranás, das paraíbas cocos. Isso tudo é o carmim mamuteando, ou o “quase” do título do álbum em questão, nem vermelho nem laranja, experimentações de alguém que, começando a carreira, joga com a tradição e joga-se na invenção.


MARIO GERALDO DA FONSECA: Pós-doutor e Doutor em Literatura Comparada pela Faculdade de Letras da UFMG. Mestre em Teoria da Literatura, Fale - UFMG. Pesquisador da cultura indígena, de modo particular da relação com a Literatura Brasileira. Autor dos livros Um Sonho Concreto (2010) e Mar.Rio (2015); Foi professor na PUC-MG e na Universidade Fumec. É Coordenador do Projeto Cria. Atividades e Saberes, que desenvolve oficinas, cursos, aulas, rodas de conversas, e do Coletivo Partilha de artistas que promove o Sarau da Partilha, que expressam a relação entre estética e política.


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